09 agosto 2010

Vida Simples

Maria era uma mulher muito simples. Sempre o fora. Calada, tranquila, mansa de coração. Morava em uma casinha simples, na comunidade do Passo Largo. Nascera e crescera ao lado de pessoas simples. Muitos ali nem tinham registro de nascimento, mas ela fizera questão de registar os seus três filhos mesmo sem o nome do pai. Um dia, quando eles alçassem voo precisariam deste documento.
Nesta manha, quando o radio-relógio despertou marcando 5.30 da manha, ela se levantou, arranjou os cabelos crespos e desgrenhados em um rápido rabo-de-cavalo, e ainda sonolenta foi ate a cozinha colocar agua pra ferver. O fogão, velho e descorado, só tinha duas chamas funcionando. Voltou ate o quarto, trocou a camisola, e percebeu que o marido não havia voltado para casa nesta noite. Normalmente chegava nas madrugadas e se deitava no velho sofá, ou pelo chão mesmo.
«Desgraçado, bêbado sem vergonha. Não valia mais pira nada, e ainda não a deixava em paz.»
Lavou a boca, escovando os restos dos poucos dentes que sobravam na sua boca, e pensou que daqui a dois meses a teria uma dentadura que a permitisse um sorriso novo. Ficou pensando em todas as economias que estava fazendo nos últimos seis meses para realizar este grande sonho.
Foi ate a padaria do «Seu Onorio». Homem bom, integro, honesto. Viúvo, com 3 crianças pequenas preparava o melhor pão da comunidade. Trabalhava todos os dias, de domingo a domingo, e seu grande desejo era que Maria largasse o marido a toa e viesse viver com ele. Mas não tinha coragem de falar isto a ela. «Deus me livre», pensava e voltava ao trabalho.
Chegando em casa, acordou os filhos, arrumou o pão com manteiga (a patroa havia dado um pote pra eles, quase vencendo, mas quem se importa?).
Os bacurizinhos foram se levantando e vestindo o uniforme. Maria os apressava. Ja eram quase 6.30 e poderiam se atrasar.
Ouviu um barulho no portão, olhou pela janela. Era o marido, cambaleando sobre as próprias pernas. Certamente agora dormiria o dia todo, e quando elas e os meninos voltassem a noite nem o encontrariam. A jornada não era fácil pra ela, mas não costumava reclamar. O importante é que o trabalho de diarista estava dando pra manter os meninos na escola. Quando ouviram a voz do pai, o menorzinho começou a tremer. A mãe, alisando seus cabelos, prometeu que nada aconteceria.
Ele entrou, ja mexendo nas panelas, dando chutes no cachorro vira-latas que viera abanado o rado, numa silenciosa lealdade e alegria. O menininho agora chorava, e o irmão do meio, tímido pediu ao pai que parasse. «Cala a boca, filho da mãe, senso chuto é você.» O mais velho, revoltado o mandou sumir. A mãe, tentando apaziguar, adiantava os meninos. Rapidamente engoliram o pao com o chá-mate e ficaram pronto pro dia na escola. Na porta da cozinha Maria ainda passa a ultima olhada nos filhos. Alisa o cabelo do mais velho, abotoa a camisa do outro, amarra do cadarço do menor. Silenciosamente abençoa as crianças e pede a proteção Divina para eles.
Ao saírem, os olhos da mãe os acompanho por alguns minutos, mas tem muito o que fazer. Ao voltar pra casa, o marido continua a sessão de palavrões e quebradeiras. Ela procura ignora-lo, pois de não adiantaria reclamar. Seria muito pior. Com certeza só começaria uma sessão de tapas, socos e chutes. E prometera nunca mais levar um nico empurrão. Mas o marido, homem ignorante na estava acostumado a ser desprezado. E vou provocando-a com todo tipo de palavrões. Ela se vestia rapidamente, pois ja estava se atrasando para o próximo ónibus.
O homem, vendo que com isto não estava conseguindo nada, puxou a pelo braço, jogou a na cama, e começou a arrancar suas roupas. Ela, rezando baixinho, pediu a Deus que pelo menos fosse parido. Mas a bebida havia derrotado e ele não conseguia ter uma ereção. Era apenas o ódio que crescia dentro dele. E em meio a murros e tapas, ele cada vez mais foi ficando irado. O rosto dela ja estava desfigurado, e agora ela tentava se proteger com os braços, se enrolando no próprio corpo. Isto o instigava a bater mais. Pedia socorro, pelo amor de Deus. Os vizinhos, mesmo ouvindo não iriam fazer nada. Ja era comum isto. o marido continuou a bater e bater. Ela ouvia o som dos próprios ossos sendo quebrados, mais um dente arrancado. Os olhos, cheios de sangue, agora nem o enxergavam direito. A voz, era fraca. Ele não se cansava. Levanta sua vadia, vem lutar comigo. Você ano é a perfeita, não é a boa? E tome murros, chutes, tapas. A inconciencia tomou conta dela. Era um monte de carne e sangue jogado no chão.Nao iria trabalhar hoje, e amanha os meninos não teriam o pão. O homem, cansado da luta, se deitou e dormiu.

3 comentários:

João Araújo disse...

oi Millie
gosto de seus post natulistas. melhor que esses textos de atimosfera, imitando a Clarice Lispector, que tenho visto em alguns blogs.

um abraço

Millie Ribeiro disse...

Obrigada Joao..Amo a Clarice, mas como vc diz..tem tantas por ai...

A disse...

Olá! gostei do post, é realmente não é isso que se vê na maioria dos blogs. esse tantinho naturalista que está diferenciando :)


Agora, acho que se vê muito nos blogs de posts que falam do particular de quem escreve e tbm há sim muito da Clarice por aí, mas creio que isso seja porque ela cativou a muitos e não porque querem imita-la, até porque isso seria impossivel, as obras dela são únicas. Acho que todos que leram Clarice L. se encontraram em alguma frase de seu livro ao menos, e levam isso sempre consigo.

Beeijos att. ah vi teu blog naquela comu 'melhores livros / literatura'

ps.;corrige ali no teu perfil na última linha a palavrinha que está errada ;)

espero a tua passadinha lá no meu..

http://parfaitdintensit.blogspot.com/

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