24 julho 2010

Despedida

Quando chegou em casa, por volta das 19:00 pensava somente em tomar uma ducha refrescante, ouvindo Enya no estéreo, e depois relaxar com uma taça do bom vinho comprado na ultima viagem a Portugal.
Porem, sentia um inexplicável incomodo. Parecia que teria algo mudando em sua vida, mas não conseguia perceber o que.
Ainda no chuveiro ouviu a campainha da porta chamando. Se enrolou depressa na toalha e foi ate a porta. Um rapaz jovem com um buque de cravos e lirios o esperava a porta. Não estranhou muito visto que era um homem sempre bajulado pelas mulheres, e certamente este seria mais um convite para um jantar e uma noite de aventuras.
Foi ate a carteira pegou uma nota e ofereceu a gorjeta ao rapaz. Gostava sempre de agradar as pessoas. Procurou pelo cartão, mas ao invés disto encontrou um envelope de carta. Abriu e rapidamente foi ate o final para ver de quem era. Ao perceber que era de Ângela, deixou sobre a mesa. Ela estava muito ligada nele, sabia bem disto. Leria mais tarde, com certeza seria apenas mais uma das declarações longas e cansativas dela.
Enquanto se trocava, pensava sobre Ângela. Se conheceram alguns meses atrás em um restaurante do centro da cidade. Desde então vinham se encontrando com certa regularidade. Porem havia sentido que ela estava mudando as atitudes. Se divertiram bastante no inicio, ela era alegre e espontânea, alem de ser uma fera na cama. Sempre ligava para ela nas madrugadas e ela estava disponível para ele. Porem, nas ultimas semanas a havia percebido com certa relutância. Nao havia atendido suas ligações duas ou três vezes, e na ultima estava com uma voz chorosa, e dissera a ele que seria impossível se verem. Odiava mulheres chorosas, e por isso resolveu não ligar mais, e por fim não estava mais atendendo as chamadas dela. Alem disto estava saindo com uma loura estonteante que conhecera em uma boate.
Voltou a sala, baixou o som da musica, se serviu com mais vinho, e resolveu ler a carta.

«Marcelo,

Esta não é uma carta de amor. Não, esta é uma carta de desamor. Venho te falar sobre o desamor que estamos tendo. Venho te falar porque estou te deixando. Na verdade devo estar sendo prepotente, porque não posso deixa-lo se real emente nem estivemos juntos. Eu estava em você, porem você não estava em lugar nenhum, com ninguém. Você é um homem jovem, bonito e o mais importante experiente. Até aqui achava que esta experiência era maravilhosa porque estava cansada de me relacionar com garotos jovens e que queriam sugar de mim o que eu havia aprendido com minhas experiências anteriores. A minha procura por romance talvez tenha sido a principal causa do fim do nosso relacionamento. Nas primeiras vezes que estivemos juntos eu sentia uma forte atracão, e o sexo com você foi uma das melhores realmente excitante para mim. Quando estava em seus braços sentia me a mulher mais maravilhosa e mais amada.
Mas de repente as coisas começaram a mudar. Passei a pensar em você mais vezes que o normal. Muitas vezes acordei e percebi que gostaria que estivesse deitado ao meu lado. Outras vezes percebia que não parava de olhar para o telefone esperando sua ligação. Em alguns momentos, veja só, senti o seu perfume no ar. E você nem ao menos estava aqui. Comecei a sentir sua falta em alguns momentos inusitados, como ao sentar para ver um filme, ou preparar o jantar. Fui ao supermercado e me peguei comprando as coisas que você gosta, a marca do vinho que você bebe, o queijo que você come. E me surpreendi ao entrar numa loja de roupas masculinas para olhar uma camisa que tinha certeza ficaria otima em seu corpo.
Esperei tão ansiosa sua ligação que parece que o tempo não passava. Não estranhava o fato de me ligar as vezes na madrugada e me pedir para ir ate sua casa, pois estava exatamente esperando isto. Então, em uma das nossas madrugadas, quando cheguei ao clímax eu percebi. E as palavras saíram tão espontâneas que cheguei a me assustar: EU TE AMO. Esperei ouvir de volta, mas você não falou nada. Me beijou e se virou para o lado. Senti um medo terrível. Queira lhe falar mais, falar deste amor enorme, da paixão que me consumia. Um medo por ter sido precipitada. Nesta manha, quando me levantei e fui para casa você ainda dormia. Olhei seu corpo e imaginei o quanto seriamos felizes. Passei a fazer os planos mais loucos para nos dois. Pensei em nos casando em uma linda área verde, em uma manha ensolarada de domingo. Nossos pais, amigos assistindo a felicidade se concretizando. Sonhei os filhos que teríamos, os nossos netos. Nos dois envelhecendo juntos, com calma. Procurei estar o mais próxima possível . Passei a visita-lo em seu trabalho, a te ligar muitas vezes. Porem não havia percebido uma única coisa - você não estava envolvido. Percebi que começou a não atender os telefonemas, e ate a recusar os convites insistentes que eu fazia. Mas eu pensava que isto iria mudar. E insistia mais e mais.
Ate que ontem tive um click. Percebi que o amor era meu. Apenas meu, não era nosso. E que eu estava indo demais na minha carencia e busca de solução. E havia me esquecido de perguntar ao meu objeto amado se ele queria compartilhar comigo destes sonhos, planos e amor.
Chorei. Chorei muito. Mas tomei uma decisão. Vim me despedir. Despedir do meu amor, da minha busca. Aquelas tres palavras agora amargam meu coração. Mas, em minha dignidade guardo este grande amor para alguem que saiba e queira recebe-lo, e me despeço de sabendo que o que voce tinha me ofereceu. Aventura e sexo de boa qualidade. Agora sigamos caminhos distintos e cada em busca da sua felicidade. Boa sorte.»

Terminou de ler a carta, dobrou-a em silencio. Pensou nela com certo carinho e desejou-lhe sorte também. Ja tinha trilhado o caminho que ela se propunha agora e sabia quantas flores e espinhos ira encontrar, mas esta seria o caminhar dela, suas experiências seriam únicas, não iria interferir em sua decisão, e sentiu muito não poder dizer-lhe isto. Ela iria descobrir em seu próprio tempo.
Pegou o telefone e ligou para uma «amiga». Combinou uma noitada.

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