15 junho 2010

Partida

Olhava sem parar o relógio amarelado, pendurado no alto da parede a sua frente. Mais alguns minutos e poderia se levantar. O trabalho de recepcionista não era dos piores.
As vezes, é claro, que alguns clientes se comportavam de forma inesperada, mas sempre conseguia contornar as situações. O relogio agora marcava a hora da liberdade. Calmamente levantou, arrumou suas coisas, e se dirigiu a porta. Nao fazia nada com pressa, para saborear mais ainda os momentos de pura liberdade que iria desfrutar.
O ar fresco da noite a fazia se sentir assim: livre.
Com um gesto rápido desprendeu os cabelos, e começou a caminhar pelas ruas que já conhecia como a palma da mão.Um sorriso brejeiro no rosto, um gingado no andar. Era bonita, e sabia bem disto. Por isso mesmo fazia questao de ir pra casa sozinha. O marido muitas vezes havia oferecido para busca-la, mas sempre inventava uma desculpa sobre o valor alto da gasolina, e sobre deixar o filho pequeno sozinho.
Este caminhar para ela, seria como o percorrer de um rio, lento e preguiçoso, faceiro e elegante.
Era feliz.
Sorria para as mulheres, brincava com as crianças, timidamente aceitava os galanteios masculinos. Até cantarolava baixinho velhas canções. Sempre parava na padaria do Sr. Jonas, onde o cheiro do pão quentinho, recem saido do forno, impregnava o ar,. Este pão era o alimento para a familia nas manhas.
Certamente, se estivesse a ver aquela cena sorriria tambem.
Agora, ja no principio da noite, podia ver as estrelas surgindo, e a lua clareando o restante do seu caminho.
Estava tão entretida a pensar em si mesma, que não percebeu o carro que vinha sem faróis e em alta velocidade.
Não teve tempo de dizer adeus ao filho que a esperava para concluir o trabalho escolar, nem ao marido que esperava, vendo televisão, o jantar. Não teve tempo de pedir a bênção para a mãe, nem pode terminar a organização do armário e a lavagem das roupas.
Hoje a velha vizinha não receberia a visita de solidariedade, nem a sopa quentinha.
Ela não assistiria a novela das oito, para ver o galã que, em segredo, sonhava beijar muitas vezes.
A sua irmã não teria com quem se queixar dos filhos adolescentes e preguiçosos, ou do marido bêbado e infiel. Não poderia compartilhar as suas dores e feridas de uma vida triste e miserável.
E as plantas do seu pequeno jardim? Quem se lembraria de regar? Quem alimentaria o gato? Quem cantaria para o filho dormir? Ela não teve tempo de ensinar o caminho árduo, porem feliz de crescer ao filho. Mas teve alguns segundos para pedir a Deus que o protegesse.
Não houve testemunhas. Somente aquele corpo, sem vida jogado no chão.

6 comentários:

. disse...

chorei

Millie Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Carolina disse...

eu chooreei!

Calabria disse...

Linda a mensagem,AMEI " aproveitamos o dia de hoje como se fosse o último " em nossas vidas ,ela aproveitou trabalhou cumpriu seu papel de Mae , mas porém no fim ela pediu para Deus proteger seu filho ,foram segundos preciosos entre ela e o Ser Supremo .Usemos de sabedoria estes segundos nao nestes momentos mas no nosso dia/dia para pararmos,refletirmos ,e conversarmos com Deus.Parabens e bjao

- Ana disse...

Carambaaa, ameii *--*

Millie Ribeiro disse...

Obrigada a todos.. vcs me emocionam...

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